Jornalista, autora e muito mais. Da televisão, aos jornais e revistas, é uma importante referência na nossa cultura nacional. Lançou agora um novo volume da série de livros que é coautora (Lx60Lx70 e Lx80) chamado LX Joga. Esta semana, vem mostrar-nos um pouco do seu universo pessoal.

Nos anos 90, se o Jorge Palma tivesse criado uma igreja, eu teria sido seguidora fiel. Quotas em dia, presença assídua, e aquela energia extra, sempre pronta para evangelizar. De certa forma fui, porque o evangelho segundo Palma apanhou-me na altura em que as crenças com que fomos educados começam a dar lugar às que escolhemos. Bastava carregar no play para interiorizar: “A dependência é uma besta que dá cabo do desejo e a liberdade é uma maluca que sabe quanto vale um beijo” (A gente vai continuar), “Na Terra dos Sonhos podes ser quem tu és, ninguém te leva a mal” (Terra dos Sonhos), “Eh pá, deixa-me abrir contigo, desabafar contigo, falar-te da minha solidão” (Bairro do Amor). Teria 14, 15 anos quando encontrei o CD em casa da minha irmã 10 anos mais velha. Poucas semanas depois estava gravado para K7 e a rodar, não em loop, mas em contínuo, graças ao moderno mecanismo do meu tijolinho que permitia ir do lado A para o lado B sem ter de abrir o deck. Horas e noites a fio a sentir que aquele disco tinha sido escrito para mim. Quem seriam os outros apóstolos?

A este seguiram-se o “Palma’s Gang ao vivo no Johnny Guitar” – sempre adorei o “Maçã de Junho” – e o batido “Bairro do Amor”. Percebi que o Palma aprendera a escrever com um tipo que aparecia a espaços nos meus livros de português, um tal de Ary dos Santos. Percebi que era possível fazer coisas destas em português de Portugal. Percebi que aquele álbum, incluindo o virtuosismo do Palma no piano, eram um milagre.

Em 2016 o Palma anunciou que ia voltar ao Só em concerto no CCB. Há anos que não ouvia o disco do princípio ao fim, substituído por tantos outros, da raiva dos Ornatos à deriva do JP Simões. Os momentos em que nos meus livros resolvo escrever sobre música tornam-se invariavelmente viagens por estradas secundárias cheias de desvios e paragens inesperadas. Os Chinchilas nos anos 60, a Banda do Casaco nos 70s, aqueles one-hit wonders todos dos 80s. Comovo-me com o FMI do José Mário Branco, comovo-me com o Glória da Sétima Legião, passei a comover-me com os Xutos, assim, em geral. Mas nada como o Só. Ainda hoje dou por mim a repetir mais vezes do que gostaria, “Tenho duas almas em guerra, sei que nenhuma vai ganhar” (Só). Naquela noite no CCB, sala cheia, alegria no ar, as letras na ponta da língua e aquilo a que vulgarmente se designa por água nos olhos, reunimo-nos, os seguidores, os apóstolos, os fiéis. E como no “Fim”, o último tema do álbum”, fechei os olhos e, naquela viagem, percebi que não estou só.