Ao longo do tempo, muita gente nos tem perguntado muita coisa sobre o processo de criar um podcast. Resolvemos, por isso, resumir toda a nossa experiência ao longo dos últimos 5 anos e partilhar convosco, para que vos possa guiar na criação do vosso.


Porquê fazer um podcast?

Tens a certeza que este é o meio de comunicação certo para ti? De que forma te expressas melhor? Os podcasts estão a passar um momento de alguma efervescência e visibilidade mas não quer dizer que seja a escolha certa. E, sobretudo: Não faças um podcast porque achas que vais ficar famoso, é muito pouco provável que isso aconteça. Atenção, também não quer dizer que isso não possa acontecer… podes ser um comunicador nato! Deves fazê-lo porque tens algo para partilhar com a comunidade.

É importante que tenhas convicção na tua motivação para criar este podcast porque, a longo prazo, podes dar por ti a fazê-lo sem ter assim tanta gente a escutá-lo. Aquela fase de deslumbramento inicial pode ser suplantada por um sentimento de falta de recompensa. Não desistas, a maioria das coisas não se desenvolvem instantaneamente.

Para além disso, fica aqui uma informação dramática: Os podcasts dão muito trabalho. Por mais simples que seja o que pretendes fazer, provavelmente vais gastar um largo número de horas de volta disso. Ainda por cima, uma regularidade consistente é uma coisa importante para um podcast. Provavelmente vais ter de sacrificar outros planos em prol da tua nobre “podcausa”.

Estás pronto para assumir um compromisso?


Do que é que tu gostas?

Já respondemos ao “porquê”, está na hora de falar sobre “o quê”. Encontrar o tema certo é complicado. Pensa: há algum assunto que te apaixone profundamente e do qual consigas falar por muuuuuuiiiito tempo? É que não podes ficar sem assunto, muito menos ao fim de 5 episódios. Todos temos um tema que é uma grande paixão, pensa qual será o teu.

A ideia do Brandos Costumes surgiu duma paixão já existente. Quando o Pedro começou, já tinha na cabeça que havia muita música portuguesa espetacular que ainda não tinha sido descoberta por muita gente, e essa vontade de a mostrar foi a principal razão para criar este podcast.

O tema do teu podcast, depende de ti. Somos todos diferentes e gostamos de coisas diferentes, algumas que apaixonam muita gente. És viciado em cinema japonês? Em memes da internet? Astrologia? Fofocas de celebridades? A identificação com o tema do teu podcast e a honestidade da tua abordagem serão essenciais para conseguires relacionar-te com a tua audiência. Faz a tua lista de coisas que gostas e escolhe a que te parece que daria um melhor podcast – a que te daria mais pica para explorar e que achas que terias mais pessoas interessadas em ouvir. Não precisas de ser um perito, mas convém seres curioso e autêntico. Por exemplo: se és fã de memes da internet, porque não criares um podcast onde cada episódio conta a história de como apareceu um meme português? Nós ouvíamos isso. Põe-te no lugar do teu ouvinte e pensa no que tu gostarias de ouvir.


Ouvidos atentos.

Explora o teu agregador de podcasts e pesquisa o que já se faz sobre os teus assuntos preferidos para perceberes como essas pessoas estruturam os programas e de que tópicos falam. E, depois, pensa como o podes fazer melhor ou de um ângulo diferente. É importante ouvires o que se faz para perceberes como outros podcasters contam as suas histórias e abordam os mesmos assuntos que tu.

E, depois, é tempo de decidir como vais fazer. No geral, podemos classificar 3 tipos de formações:

  • Tu contra o mundo
  • Tu e mais alguém
  • Um grupo de pessoas

Tu contra o mundo

Esta é uma formação difícil, claro. Tens jeito para monólogos, consegues falar de assuntos durante muito tempo? Essas coisas são assim tão interessantes para o público geral que o leve a querer ouvir? Este formato tem sido muito optado por famosos e pessoas com influência na internet. Salvador Martinha, Pedro Teixeira da Mota e outros optaram por fazer um podcast em que simplesmente falam com o seu público directamente. Mas, claro, não te podes esquecer que estas pessoas já têm o seu público fidelizado, que já os segue de outras aventuras. A menos que sejas especializado em algo que interesse a um segmento ou nicho, torna-se uma opção mais complicada. É normal que as pessoas que já estão habituadas a falar sozinhas para uma câmara ou um telemóvel estejam completamente confortáveis nesse registo, porque já estão habituados a ter esse portal com o seu público. Pode ser bastante intimidante para uma primeira vez! Podes defender-te com um texto já escrito, mas pratica para seres o mais natural possível.

Tu e mais alguém

És apaixonado por um assunto e conheces alguém que também seja. Tens aqui uma dinâmica montada: a vossa química, as coisas que concordam e discordam, a vossa paixão, tudo isto vai abrilhantar o podcast. É mais fácil ir além de um texto quando há uma conversa com outra pessoa, porque há maior espaço para o imprevisto. O discurso sairá mais natural do que se o fizeres sozinho, e é muito mais fácil porque é uma simples conversa. No entanto, não se esqueçam que têm uma audiência que vocês querem que escute. É fácil entrar em divagações quando temos muita confiança com alguém.

Também podes optar por fazer entrevistas. Ou tu e mais alguém a entrevistar pessoas, vai dar ao mesmo! Aí, para além do teu conhecimento sobre o assunto, podes ainda fazer mais: conversar e aprender mais sobre as coisas que te apaixonam com pessoas que admiras. Foi com esta a premissa que começou o Brandos Costumes: entrevistar os nossos heróis desconhecidos do grande público. Prepara umas perguntas ou tópicos, tenta conhecer o melhor possível a história do teu convidado e sê bom ouvinte!

E não te esqueças que quando vais fazer entrevistas tens mais desafios: Vais ter que conseguir arranjar contactos, ter o interesse da pessoa em ser entrevistada, arranjar uma agenda comum e contar que apareçam!

Um grupo de pessoas

Podes também optar pelo formato de conversa de grupo. Não será assim tão diferente de fazê-lo apenas com uma pessoa, mas as dificuldades de agenda multiplicam-se. O compromisso total é mais difícil de encontrar em grupos maiores, sobretudo a longo prazo. Assegura-te que essa é a escolha certa para ti e que os teus parceiros de aventura partilham a mesma paixão que tu pelo projeto – ou, pelo menos, que arranjam tempo para fazer isto. Quanto maior o número de pessoas, maior o equipamento necessário. Mas já aí chegaremos.

Mais que conversa

Há muitos podcasts em Portugal que têm um formato de discurso directo. A verdade é que há mais possibilidades dentro do mundo dos podcasts que um genérico seguido de uma conversa ou alguém a fazer um monólogo humorístico sobre um assunto.

Pelo mundo, e até por cá, temos muitos exemplos de podcasts que formam uma narrativa. Seja através da via documental ou da ficção, encontram outras formas de exprimir a sua pesquisa e de contar uma história.

Um dos programas mais conhecidos no campo documental é o Serial, um podcast ao qual muitos atribuem grande responsabilidade no boom do formato podcast. É mais complexo, porque exige uma pesquisa mais aprofundada e, geralmente, entrevistas com mais que uma pessoa. Se não estás familiarizado com este podcast, podemos dizer que serviu de inspiração para muitos dos documentários sobre crime da Netflix. É imaginar uma versão áudio disso, independentemente do assunto.

É difícil fazer algo ao nível do Serial, que tem uma equipa alargada ao seu serviço, mas também há quem consiga fazer um formato narrativo com pouco, como é o caso do You Must Remember This, da Karina Longworth, que na maioria do tempo resume-se à autora a fazer uma locução de uma peça de investigação que fez. E não deixa de ser interessante!


Equipamento

Vais estar sempre dependente do equipamento que tens, mas não deves deixar que este te limite. O sistema mais simples é: um microfone, um dispositivo que grave o som e um programa de edição. O sistema inicial do Brandos Costumes era justamente este, o que é estranho para um formato de entrevista. Este sistema deveu-se à limitação financeira mas nunca impediu os episódios de acontecerem e esta insuficiência ajudou a moldar o nosso formato para algo diferente do típico programa de entrevista. Assim, a opção foi ter os convidados a contar a sua história recorrendo à locução, música e sons como ponte entre os tópicos.

Até só com um telemóvel consegues fazer um podcast. Mas, se quiseres ter um som mais interessante e profissional tens que investir mais do que isso. Mas não assim tanto, não te preocupes! De qualquer das maneiras, não te esqueças: por mais que gastes, se tomares bem conta do material, vai durar-te muitos e muitos anos.

Microfone

Há de vários preços e feitios. Podem melhorar o teu podcast pela qualidade da gravação, mas não salvam nenhum conteúdo fraco. A verdade é que os ouvintes conseguem notar a diferença entre um microfone péssimo e um bom, mesmo que seja instintivamente. A qualidade do som afecta a concentração de audição e é o teu melhor investimento.

Se o teu orçamento é reduzido, um microfone com ligação USB pode ser a solução apropriada. Assim só tens que o ligar diretamente ao computador e o sistema está montado. Pode ser o caminho mais barato mas também é o menos flexível, sobretudo se tiveres que usar mais que um microfone USB, onde terás que fazer um grande esquema com programas extra ou que utilizar dois computadores. Valerá a pena a chatice?

Também podes optar por um microfone analógico. Pode ter a desvantagem de requerer um dispositivo extra de gravação, mas também te dará uma maior flexibilidade. Não é certo que a tecnologia USB não fique obsoleta brevemente, enquanto a ligação analógica continua presente em todo o tipo de produções sonoras, desde espetáculos, concertos, até rádios. Se vais gastar dinheiro, mais vale fazê-lo em algo que tenha maior longevidade e que simplifique o processo de gravação.

Se gravares com 2 ou mais pessoas, preferencialmente deverás ter um microfone para cada pessoa. Para ouvires todos os intervenientes de forma consistente, convém que estes estejam próximos do microfone. Atenção: não é impossível gravar 2 pessoas só com um microfone; se for esse o teu caso, não hesites em fazê-lo. Mas, se tiveres essa possibilidade, grava com um microfone por pessoa porque vai ficar muito melhor.

Muito barato e um bom investimento: o Pop Filter. É aquele circulo com uma rede que deves ter visto em alguns videoclipes gravados em estúdio. Não servem só para o estilo, servem para reduzir sons de respiração ou sons mais explosivos como os do “b” ou do “p”. Acredita, não pesam na carteira e fazem completamente a diferença.

Gravação

Se o teu microfone for USB, ou optares por gravar com um microfone mais básico ligado diretamente ao computador, o teu sistema de gravação é o computador mas, para os restantes, há outras soluções.

Placa de Som

As placas de som dos computadores não estão preparadas para obter resultados de alta qualidade. Para além disso, muitos microfones analógicos precisam de energia elétrica suplementar – também conhecido por Phantom Power -, que a maioria das placas de som consegue fornecer.

As placas de som servem para converter o sinal de som analógico em dados digitais que um computador consegue ler. Úteis para gravar microfones analógicos, mas – dependendo da placa – também te permitem gravar som de gira-discos e outros dispositivos. São muito diversas e, para além do preço, variam no número de entradas (ligações para um dispositivo). Uma entrada permite-te gravar um microfone, e por aí fora. Duas permitem-te gravar em simultâneo duas ligações. Como, por exemplo, dois microfones ou um microfone e uma guitarra.

Escolhe a que melhor se adapta ao que pretendes fazer com o que consegues gastar. Lembra-te do número de microfones que terás de utilizar em simultâneo e se esses microfones necessitam ou não de Phantom Power.

Gravador Portátil

Para gravar diretamente para o computador vais precisar de um microfone USB ou de uma placa de som, mas podes optar por uma solução mais portátil. Com um gravador ganhas a capacidade de gravar microfones em vários lugares. São ferramentas maravilhosas mas podem-se tornar bastante caras.

Mesa de Mistura

Esta só é uma solução viável para pessoas com mais de um microfone. Para além das placas de som e dos gravadores podes também utilizar uma mesa de mistura. A principal diferença é que as placas de som e a maioria dos gravadores dão-te a possibilidade de editar o som de cada entrada independentemente. Ou seja, se gravasses 4 microfones, tinhas 4 ficheiros gravados em simultâneo. No caso da mesa de mistura, se não perceberes que alguém está com o som mais baixo, já não tens volta a dar. Porque o som dos 4 microfones é todo gravado num ficheiro único.

Auscultadores

São importantes e não só para o estilo. Se te ouvires consegues ter uma melhor dicção e perceber como estás a colocar a tua voz. Para alem disso, uma pessoa sem microfone que está a conversar com outra pessoa muitas vezes não se apercebe que não está a falar para o microfone. Usa-os se puderes.

Software

Há muitos programas que podes utilizar para fazer podcasts e nenhum é “o programa mais apropriado”. Têm pequenas diferenças mas todos dão para fazer podcasts. O que existe são ferramentas mais utilizadas.

Dentro das soluções gratuitas tens o Audacity (Win+Mac), que é dos mais populares. Pode ser um pouco confuso ao começo (e é um pouco arcaico) mas é dos mais simples para iniciantes. Há também o Garage Band (Mac), que é um programa mais atual. Há muitas placas de som que oferecem software de gravação com a sua compra.

Há também muitos programas pagos. É necessário um maior compromisso para tal, porque não são baratos. Dentro dos mais utilizados temos o Logic Pro (Mac), Adobe Audition (Win+Mac) e muitos mais.

Algumas plataformas de alojamento de podcasts, como o Anchor, permitem editar no teu browser.


Nome

É a única parte que só depende da nossa imaginação e é a mais complicada. Este nome vai ficar para sempre. Idealmente, tem alguma relação com o assunto, é fácil de procurar e é algo que não existe, para que os teus ouvintes o encontrem sempre – façam como nós dizemos, não como nós fazemos. O nome do Brandos Costumes causou muita insónia antes de surgir, mas um amigo teve a ideia para o nome. Tu consegues. Faz uma lista de nomes, pergunta a amigos ideias.


Som… Som. Teste.

Depois é tempo de experimentar, de aprender a usar o programa, de perceberes como gostas de colocar a voz. Pensa numa música de entrada para o teu podcast e faz um programa de teste. Precias de perceber quanto tempo demoras a produzir um episódio, para perceber quantos conseguirás fazer por semana. 


Difusão

A seguir é inventar uma imagem para o podcast, para servir de capa nas plataformas sociais. E está tudo pronto para ir para o ar. 

Hoje em dia existem várias plataformas pagas e soluções gratuitas para colocares os teus episódios nos agregadores de podcast (como o Spotify ou Apple Music). Estas plataformas vão-te dar o feed RSS, que é o link que todas estes agregadores precisam. Outros, como o Anchor (grátis), já distribuem o link por ti. Existem muitos outros como o Podbean, o Buzzsprout ou o Blubrry. Atenção que se a tua plataforma ficar offline, o teu podcast também fica. É pouco provável, mas não deixa de ser verdade. Por esses e outros motivos, muitas pessoas optam por fazer elas próprias o alojamento do podcast, que só é recomendável se perceberes um pouco do assunto.

A aprovação do Apple Music, por exemplo, demora alguns dias. Ah, e atenção que o Spotify tem tendência a bloquear podcasts que contenham músicas com direitos de autor de terceiros.


Promoção

Cria as redes para o teu podcast e partilha-o com as pessoas que são apaixonadas pelo tema do teu podcast, cria uma comunidade. Não faças spam, faz conteúdo que as pessoas queiram partilhar. Boa sorte!

Parabéns, tens o teu podcast. A partir daqui, a missão é continuar. O entusiasmo de um projecto novo é emocionante mas não deixes que o fogo apague, tens tudo para crescer. Quem sabe se não te vemos nomeado na edição de 2020 do PODES, os prémios nacionais para podcasts?

Mais informação

Em caso de dúvida, é simples: envia-nos um e-mail. Também estamos disponíveis para formações ou criar podcasts para marcas.