O Brandos Costumes torna-se o Podcast do Ano para os Prémios Podes em 2020, os únicos prémios portugueses para podcasts. Este artigo é da autoria de Pedro Paulos e foi originalmente publicado na Vice Magazine a 27 de Abril de 2016, quando o podcast celebrava 1 ano de vida. A edição do artigo foi pelo editor-chefe da altura, o grande Sérgio Felizardo. Se quiseres criar o teu podcast, segue esta ligação.

“Faltavam dois anos para os 30 e sentia que ainda não tinha feito o suficiente. Pensava que o máximo que poderia fazer com a minha vida seria casar. Já era tarde demais para tudo o resto”.

Lembro-me que meio ano antes de criar o Brandos Costumes estava desolado. Lembro-me de uma sexta feira ir passear o meu cão e de só me apetecer explodir, tal era o borbulhar arrasador que sentia. Não foi um dia inédito. Era a minha frustração, aquele irredutível pressentimento que a minha vida já não podia ficar melhor. Faltavam dois anos para os 30 e sentia que ainda não tinha feito o suficiente. Pensava que o máximo que poderia fazer com a minha vida seria casar. Já era tarde demais para tudo o resto. Tinha perdido o comboio.

E até fui um adolescente activo, envolvido em vários projectos diferentes, em área distintas… mas, naquela altura, tudo isso se tinha desvanecido da minha vida. E, pior, para além da minha insatisfação profissional, não havia nada que me entusiasmasse para além do meu cão. Estava preso a uma rotina de um trabalho por turnos, fatigante e desinteressante. O futuro só era risonho, porque se ria na minha cara.

Não é que estivesse completamente parado, até fazia alguma coisa. Ocasionalmente, escrevia uns artigos, produzia música e tocava discos com um dos meus melhores amigos. Só que, nos últimos anos, ele tinha andado a trabalhar pelo estrangeiro – Índia, Turquia e até Nova Zelândia. Enquanto ele descobria um Mundo Novo, eu arranjava desculpas para o meu fracasso. O que é que eu andava a fazer com a minha vida?

2009. Estava a ouvir os discos do meu pai em busca de malhas decentes. De canções para poder passar numa daquelas noites em que metia discos. Encontrei um disco que nunca tinha visto, com uma artista nacional de quem nunca tinha ouvido falar na vida. “Quem é esta Kriskopke?”. Meti o disco a rodar e a agulha do gira-discos apontou directamente ao meu futuro. Eu é que ainda não sabia.

Em 2014, voltei a ouvi-lo. Enquanto a Cristiana cantava, uma ideia surgiu na minha cabeça. Uma ideia comum no mundo do Djing: queria fazer uma mixtape. Só que, em vez de tocar house music ou techno, tocaria as músicas portuguesas que apreciava e que os meus amigos não conheciam.

Não havia compromisso, a minha missão era apenas partilhá-las. Tentar mostrar-lhes que havia muita coisa boa para ser descoberta por cá, para além daquelas bandas e artistas que toda a gente conhece. Criei mixtapes sem locução nenhuma, apenas com a força da música. E, para minha surpresa, obtive milhares de escutas, um pouco por todo o Mundo.

Apesar de estar a receber imensas escutas, o feedback era escasso. Era uma coisa estéril. Lançar assim um conjunto de músicas, ter imensa gente a ouvir, mas não saber ao certo o que as pessoas achavam. E até parecia ter sucesso, chegou a ser destacada pelo blog #music do Tumblr e também tive oportunidade de, a convite do Rui Teixeira (Bandido$, SONO, ROI ) e de uma conhecida marca de whisky, tocar os meus discos de música portuguesa num dos quiosques da Avenida da Liberdade.

E, mesmo depois de terem surgido outras propostas, mais nenhuma acabou por concretizar-se. No entanto, uma delas, com o Pedro Azevedo do Musicbox, acabou por me apresentar ao Jérémie Moussaid Kerouanton, o francês que faz música com o seu projecto iZem. Fui a casa dele para nos reunirmos, porque queríamos fazer um projecto relacionado com as tais mixtapes. Mostrei-lhe as músicas das mixtapes, as que tinha guardadas e os meus edits. Um edit é diferente de um remix. Em vez de ser uma nova versão da canção, com a estética adoptada pelo produtor, distingue-se pela proximidade com a música original. Com a retirada de certos momentos e a extensão de outros, conseguindo, ainda assim, alterar ou impulsionar a energia de uma canção.

Na conversa, disse-me que queria fazer um podcast, uma coisa como o This American Life. Sinceramente, nunca tinha ouvido falar de tal coisa, mas sabia que tinha capacidades de edição para fazer um programa de rádio. E queria começar alguma coisa. Era perfeito.

No dia seguinte comecei a ouvir podcasts. E fiquei viciado. Estava a passear o cão e os passeios estendiam-se, porque queria ouvir mais. Entretanto, o Rodrigo Nogueira começou o Até tenho amigos que são e fez imensa pressão para que transpusesse aquelas mixtapes para um podcast. Decidi arriscar. Comprei um microfone e comecei a procurar um nome. Arranjar um nome é das etapas mais difíceis de um projecto. Demorei muito tempo a encontrar o certo. Não conseguia dormir, virava-me e revira-me na cama em busca do nome ideal. Não consegui. Felizmente, um amigo meu, o Miguel Carvalho, sugeriu o nome perfeito: Brandos Costumes.

Depois, foi tempo de criar tudo e de começar a gravar o primeiro episódio. O primeiro foi pouco mais que uma tentativa de criar rádio, sem ter noção de como se faz. Muito amadora. E todas as músicas do primeiro episódio já tinham estado nas outras mixtapes.

Já antes de sair o primeiro episódio, andava a tentar arranjar os entrevistados para os próximos episódios. Tinha decidido entrevistar pessoas que considerava figuras-chave. Juntar à oportunidade de fazer um podcast, a de conhecer os meus heróis da música portuguesa e ter a possibilidade de contar a sua história. Foi por isso que a minha primeira escolha foi logo Cristiana Kopke, a Kriskopke.

Curiosamente, ao longo deste ano, recorri ao facebook inúmeras vezes para entrar em contacto com artistas para os entrevistas, esta foi só a primeira vez. É a maneira mais rápida e fácil de encontrar uma pessoa.

A entrevista aconteceu dois dias antes de o podcast ser lançado. Curiosamente, ela estava perto, mora na Póvoa de Santa Iria, na terra onde cresci e onde os meus pais moram. Para além de muitas histórias que formaram o segundo episódio, tive a oportunidade de ter acesso a fotografias da época e material promocional de espetáculos antigos. Lancei o episódio no dia 21 de Abril e tive boas reacções. Rapidamente cheguei aos 1000 likes no Facebook. Inesperadamente, uma semana depois, recebi uma mensagem na caixa de correio:

27/04/2015 às 15:00 (sim, em ponto)

Olá, Pedro

Trabalho no 5 Para a Meia-Noite, da RTP, e gostávamos de lhe fazer um convite para vir ao programa do Nuno Markl já na próxima 4ª feira, dia 29 de Abril.

Teria disponibilidade e interesse?

Fiquei agitado. Sim, claro que queria. Tinha acabado de ser convidado para ir falar de um projecto que ainda agora tinha começado, a um dos programas de televisão com maior audiência do País. Geralmente, só as pessoas conhecidas fazem isso, pensei eu. Depois aconteceu isto:

Brandos Costumes, para falar a verdade, nunca teve intenção de se limitar a nenhum espaço temporal, mas o elogio, só com um episódio lançado, era gigantesco. Quando uma pessoa que admiramos e que tem esta exposição pública partilha o nosso projecto é um pouco… bizarro.

Apesar disso, o podcast conseguiu, mesmo antes disto tudo, chegar ao número um da classificação do iTunes. As coisas estavam todas a acontecer muito rápido.

Tive uma entrevista com uma produtora do programa, para perceberem melhor o que me iriam perguntar no ar. E, quando dei por mim, era dia de ir ao 5 para a Meia-Noite. Cheguei ao estúdio, acompanhado de quem me era mais próximo. Sou encaminhado para uma espécie de backstage e fico lá sozinho. Aparece-me o Nuno Markl à frente e temos uma pequena conversa sobre o podcast e música portuguesa e, pouco depois, começa o programa.

A minha vista não era muito preenchida. Estava sozinho numa divisão atrás do cenário, a ver o programa numa televisão sem som e a pensar no quão surreal era que, a qualquer momento, iria entrar para dentro da televisão. Só via umas paredes de madeira e era apenas aquela porta que me separava da televisão em directo. Depois de 40 minutos em estado de ansiedade, foram buscar-me. Os nervos eram infinitos.

“Eu fiz isto para te obrigar a continuar” , disse-me Nuno Markl, depois do programa.

Quem me conhece melhor notou o quão nervoso estava. Mas, depois, ao ver na televisão, percebi que a realização, o facto de terem várias câmaras a alternar, muda tudo. Lá, a minha performance pareceu-me muito pior! Quando saí do estúdio, ainda meio abananado, já tinha mais mil seguidores na página de Facebook, o volume de escutas do primeiro episódio tinha disparado e tinha montes de mensagens de pessoas que me conhecem e me tinham visto na televisão.

O Nuno Markl deu uma grande ajuda. Para além dos três ou quatro posts no Facebook a falar do podcast, esta primeira ida à televisão originou convites para programas como Curto Circuito, na SIC Radical, ou Prova Oral, na Antena 3. E a partir daí tudo começou, tudo mudou. O Fernando Alvim convidou-me para fazer um podcast com ele e com o Nuno Dias. Fui jurado no Festival Termómetro, ao lado de nomes importantes do jornalismo musical em Portugal. Fui convidado para escrever para o Observador sobre música portuguesa. E fui convidado a trabalhar com a VICE, onde sempre me senti em casa.

Por isso, não desistam, meus! Não me quero armar em Gustavo Santos, mas as merdas mudam mesmo de um momento para o outro. Se parece mal, continua, vai ficar bem!

NOTA de Pedro Paulos (09-11-2020): Este artigo foi escrito quando o Brandos Costumes celebrava um ano e tanto mudou depois disso. Este podcast foi, sem dúvida, uma excelente rampa de lançamento e em todos os trabalhos que tive depois de o criar, houve uma percentagem de responsabilidade dele. Claro que continuaram a existir altos e baixos, mas ele fez-me sempre crescer muito. Hoje em dia tenho do meu lado a Angelina Velosa e a Marta Rocha, fazemos vídeos e queremos fazer muito mais. Criem o vosso projecto, se sentirem esse apelo. Não desistam, lutem pelo que vocês acreditam. Não vai ser fácil, mas o processo vai tornar-vos melhores.