Quando se fala de discos preferidos da música portuguesa, cada um tem os seus. Há muitas escolhas, muitas das quais unânimes. Resolvemos aproveitar o mote de ter que ficar em casa para vos dar algumas escolhas musicais para explorarem, de discos que são especiais para nós e que achamos que merecem ser relembrados e celebrados.

Taxi – Salutz

Os Taxi foram uma das melhores bandas dos anos 80. Podem não ter aquele lado experimental dos GNR ou o peso dos Xutos & Pontapés mas a verdade é que a solidez das suas canções é inegável. Crescemos a ouvir os singles dos dois primeiros discos, a “Chiclete” e a “Cairo”, mas neste disco eles aventuram-se pela eletrónica e fazem-no com mestria. Para começar, “Sing Sing Club”, o single deste disco, é um verdadeiro hino. Depois, o restante disco é uma perfeita demonstração do New Wave: Uma mistura de disco, pop eletrónica e rock.

Músicas que destacamos: “Sing Sing Club”, “Oxalá Lá Lá” e “Tamborim”.
Podes ouvir: Nas plataformas de streaming ou no Youtube.

Jáfu’Mega – Jáfu’Mega

Podia ser também o “Recados”, que saiu no ano seguinte, mas escolhemos este porque, apesar de ter músicas inevitáveis como “Latin’América” ou “Nó Cego”, o resto do disco não lhe fica atrás. Nunca esqueceram as suas raízes do Jazz e formaram um disco que se distingue do boom do rock português mas não deixa de se conseguir encaixar. Neste disco há uma música que tem um nome particularmente curioso, “Guida Peituda”, que é na verdade uma canção sobre Margaret Tatcher. Falámos com o Mário Barreiros ao vivo durante a Rádio Faneca há 2 anos, republicaremos em breve.

Músicas que destacamos: “Homem da Rádio”, “Kashbah” e “Sei que Pareço Um Ladrão” (para além daquelas óbvias)
Onde ouvir: Nas plataformas de streaming ou no Youtube (músicas soltas)

Tó Neto – Láctea

Deixou-nos em 2013 mas o seu legado é precioso. Foi pioneiro na eletrónica nacional e só conseguimos imaginar o quão especial terá sido a apresentação deste disco em 1983 no Planetário Calouste Guldbenkian. Há quem lhe chamasse o Jean Michel Jarre português e é fácil de o perceber, através deste disco de 1983 editado pela Sassetti. Teve algum impacto na época mas acabou por ser esquecido com o tempo e, leia-se, muito injustamente.

Músicas que destacamos: “Odisseia“, “D. Vagabundo“, “Zuzu
Onde podes ouvir: Se não tiveres o disco, só no Youtube. Não há as músicas todas, é pena.

Né Ladeiras – Sonho Azul

Algures pelo Youtube há uma entrevista em que Né Ladeiras desvaloriza as coisas mais pop que a obrigaram a cantar mas, ouvindo pela canção “Tu e Eu”, ainda bem que isso aconteceu. A cantora, que há pouco tempo lançou um pedido de ajuda nas redes sociais, tem uma das vozes mais bonitas da música portuguesa. É um disco orgânico, com influências de disco, folclore e pop, que pode tornar num dia chuvoso em algo mais mágico. Tem o Pedro Ayres Magalhães na produção, e ainda bem!

Músicas em destaque: “Tu e eu”, “Em Coimbra serei tua” e “Sonho Azul”
Onde ouvir: Nas plataformas de streaming (numa compilação com restantes singles desta altura) ou Youtube (músicas soltas).

Fernando Girão – Africana

Veio para Portugal quando tinha 17 anos. No principio dos anos 70, criou os Heavy Band que fizeram primeiras partes para Gilberto Gil e Os Mutantes no Brasil. O “Very Nice”, como era tratado pelos amigos, tem alguns trabalhos muito curiosos mas resolvemos destacar este. É um disco cantado em Português do Brasil mas feito em Portugal. O disco foi feito a meias com Quico Serrano, que fez parte do dueto eletrónico Poke. É um disco único na nossa música.

Músicas a destacar: “Amor de Ministério“, “Divórcio” e “Crise
Onde escutar: Infelizmente só há algumas músicas no Youtube, mas dá para perceber o valor da coisa.

Paulo de Carvalho – Cabra Cega

Conhecemo-lo por causa de músicas como “Depois do Adeus” ou “Nini dos Meus Quinze Anos” mas se a conversa é Funk, Paulo de Carvalho é o rei em Portugal. Este disco tem tantas músicas a destacar que é impossível escolher só 3. Tem a música de genérico do filme “Crónica dos Bons Malandros”, baseado na obra do Mario Zambujal, que agora foi adaptada para uma série da RTP. Caraças, como é que este disco não é unanimemente considerado um dos melhores da música portuguesa?!

Músicas a destacar: “Eh Pá”, “Cabra Cega”, “O Malandro”, “O Fakir”, “Saiam da Frente”.
Onde escutar: Plataformas de streaming ou Youtube (músicas soltas).

Dina – Dinamite

E se a conversa é Funk, temos que falar deste disco da Dina. Conhecida especialmente por causa do seu grande êxito no Festival da Canção de 1992, “Amor de Água Fresca”, tem em “Dinamite” um disco que nos faz pensar os outros caminhos que a sua carreira podia ter tido. Era mestre em baladas, claro, mas aqui mostra-se atenta a sonoridades mais dançáveis e com uma energia surpreendente. Em 2016, Ana Bacalhau, Da Chick, Mitó Mendes, Samuel Úria, Márcia, B Fachada, D’Alva, Catarina Salinas e os Tochapestana, cantaram as canções deste disco (e outras) num espetáculo de homenagem (muito merecida) chamado “Dinamite”. Deixou-nos o ano passado. No Brandos Costumes temos um episódio com ela, tivemos essa sorte.

Músicas a destacar: “Deixa Lá”, “Desamparem-me a Loja” e “Isso é que era bom”
Onde escutar: Nas plataformas de streaming ou no Youtube.

Lena D’Água – Perto de Ti

Nós sabemos, este é um pouco mais unânime. Apesar de hoje em dia ser justamente reconhecida, há poucos anos atrás, quando conversámos com ela, não era um nome tão óbvio. Este disco é um disco essencial, com composições pop perfeitas. É um prazer ver que ela está de volta, com a qualidade que a caracteriza.

Músicas a destacar: “Carrocel”, “Da Noite”, “Perto de Ti”, e as outras todas.
Onde escutar: Nas plataformas de streaming e no Youtube.

Street Kids – Trauma

Conseguiram ter sucesso com o single “Propaganda”, que é a primeira música deste disco, mas o resto do disco ficou perdido. É um excelente registo da altura do boom do rock português. É a banda de Nuno Canavarro, mundialmente renomeado pela música ambiental/experimental, e de Nuno Rebelo, que… também é uma referência mundial nessa área e que também tocou nos Mler Ife Dada. Emanuel Ramalho, com o alter-ego “Flash Gordon”, que depois tocaria com os Peste & Sida, Delfins, Rádio Macau, Sérgio Godinho, entre outros. Eduardo Sobral na guitarra e Luís Ventura na Voz, este último criaria depois os Lobo Meigo. Duraram de 1980 a 1983 e este foi o seu único álbum.

Músicas a destacar: “Nunca pensei que te anulasses tão bem”, “Todos são paranóicos menos eu” ou “Tropa Não”
Onde escutar: No Youtube, em playlist

Tantra – Mistérios e Maravilhas

Antes do boom do rock português, os Tantra já eram parte central desse universo. A banda de rock progressivo até encheu em 1978 o Coliseu dos Recreios, algo inédito na altura. Manuel “Frodo” Cardoso, Tozé Almeida (mais tarde dos Heróis do Mar), Américo Luís e, acreditem ou não, Armando Gama, levam-nos numa viagem em “Mistérios e Maravilhas”. A banda montavam um verdadeiro espetáculo em palco, com adereços, cenografia, máscaras e espetáculos de luzes e fumo. Este disco, saído em 1976, terá sido, certamente, essencialmente para tudo o que aconteceu nos anos seguintes.
Manuel Cardoso já conversou connosco e contou a sua versão da história dos Tantra:

Músicas a destacar: “À Beira do Fim”, “Partir Sempre” ou “Mistérios e Maravilhas”
Onde ouvir: Nas plataformas de streaming ou no Youtube.